segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

ADVENTO: TEMPO DE PLENO DE ESPERANÇA



Rev. Márcio Retamero(*)




“Vigiai, pois, porque não sabeis quando virá o dono da casa: se à tarde, se à meia-noite, se ao cantar do galo, se pela manhã; para que, vindo ele inesperadamente, não vos ache dormindo. O que, porém, vos digo, digo a todos: vigiai.” (Marcos 13.35-37)


Foi assim que Jesus terminou seu “Sermão Profético”, conforme registrado no Evangelho segundo São Marcos. Estavam no Monte das Oliveiras, defronte ao Templo, assentado com Pedro, Tiago, João e André, os filhos do “trovão”. Partiu deles a pergunta urgente: “Dize-nos quando sucederão essas coisas, e que sinal haverá quando todas elas estiverem para cumprir-se” (Marcos 13.4). Ele respondeu citando alguns sinais já sabidos por aqueles que conheciam o gênero literário e as palavras do que chamamos de “apocalipsismo judaico”. Nada de novo, senão, o final, importantíssimo da parábola chamada “da figueira”. Ninguém, senão o Pai, sabe quando ocorrerão tais coisas, nem os anjos, nem o Filho o sabem. Portanto, “Vigiai” (agrhypneite: sair do sono).

Já nos encontramos exatamente no meio deste Tempo chamado Advento: Tempo de espera daquele que vem; Tempo de Sobriedade e de Vigilância; mas, igualmente, tempo de Lembrança e de reviver o Natal do Senhor Jesus. Vejam a sabedoria da Igreja: ela nos convida a todos, neste Tempo de “escuta”, de reflexão sincera e forte, não apenas a olhar para trás, para o já seguro, para o já acontecido, ou seja, Deus se Encarnou, O Verbo se Fez Carne e entre nós habitou: Emanuel, Deus que caminha Conosco veio, contudo, voltará! Logo, a Igreja nos convida a um duplo movimento que o olhar pode captar: ao passado para relembrar o que Ele fez, o que Ele falou, o que Ele nos proclamou enquanto sua tenda estava armada entre nós, todavia, a olhar para a frente, para o porvir: Ele virá! Quando? Nem Ele o sabe, nos diz o Evangelho de Marcos, nem anjos sabem. Somente o Pai. Por isso, o convite muito sério: “saiam do sono!”

A Igreja, neste Tempo de Espera da Vinda do Kyrios, nos pede para cobrir de roxo o Ministro da Palavra que traz a Mensagem de Esperança; o mesmo roxo que cobre a Mesa da Comunhão e o Púlpito – terra santa, onde até mesmo anjos tremem pisar! – de onde se proclama tal mensagem que não nos convida ao medo do apocalipse, mas à vigilância sóbria e feliz esperança, posto que a mensagem da Igreja, “...o Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (Marcos 1.1) nos afirma: já veio e se completou nossa salvação! Ele, Jesus, o Kyrios, o Filho de Deus, já consumou a obra a nosso favor e a recebemos pela graça e pela fé que em nós operou eficazmente, de maneira que o medo não faz parte do nosso viver em fé e na fé em Cristo. O roxo não é para nos causar medo ou espanto, mas para nos lembrar a vigilância e a sobriedade.

Neste capítulo 13 do Evangelho de Marcos, a Igreja, representada pelos quatro mais íntimos do Senhor, também é convidada a subir ao Monte das Oliveiras, defronte ao Templo, para escutar/relembrar as palavras e ações do Salvador. Monte das Oliveiras e Templo, agora no sentido existencial: o monte das nossas vidas, o templo que somos nós, esse nós é cada um e cada uma, mas igualmente é o coletivo, a Igreja. Ele nos convida a sermos os porteiros (thyrôroi) deste edifício chamado vida humana: porteiros que, em meio às densas trevas de um mundo que está completamente mergulhado nelas (guerras, fome, inimizades, cerceamento de fronteiras e construções de muros, atentados terroristas, ameaças à vida de todo ser humano) e que sabem que tudo isso passará, proclamam a chegada do Senhor, a já ocorrida e a que está para vir (Parousia).

Porque sabemos que tudo passará, exceto Sua Palavra; porque sabemos que a obra já está consumada e a Páscoa, a Passagem da Morte para a Vida, ou melhor, a derrota da Morte já ocorreu, e que, todavia, estamos num hiato em meio à História que proclamamos essa Boa Nova, esse Evangelho. plenos de esperança (não é disso que o mundo tem fome, esperança, uma esperança que não engana, antes, nos mantém firmes em meio a tudo o que vivemos?). E o fazemos vigilantes, posto que devemos sair do sono (esta é a mensagem central do Advento!), o sono que nos traz torpor, sono que nos traz sonhos que são devaneios, sono que também nos traz pesadelos inúmeros que nos assolam a alma.

Sair do sono e estarmos acordados esperando o Senhor é mensagem que não aliena, antes, é mensagem que desperta, que nos desperta para a realidade que nos circunda e, no meio dessa roda viva chamada vida, proclamarmos a esperança de um novo Céu, de uma nova Terra, da possibilidade de alegria, paz e abundância: a Era Messiânica que já veio e não vivemos ainda suas promessas, ainda vivemos em meio ao deserto, porque o mundo ainda não ouviu, não cumpriu as ordenanças que Ele nos deixou. Por isso, a possibilidade de, na proclamação da Boa Nova, a Metanoia, a nossa, a da Igreja, a do mundo inteiro! Por isso não podemos dormir, somos os porteiros do edifício da humanidade, que esperam atentos e trabalhando Aquele que vem ao nosso encontro nos salvar de nós mesmos e de tudo o que somos nós – cada um, cada uma, até mesmo a Igreja –, somos capazes de produzir de mal e nos converter, girar o barco da existência para outro o rumo, o rumo por Ele apontado, para vivermos plenamente o tudo o que Ele mesmo nos prometeu, o Reino, que não está ali ou lá, mas aqui, em nós, na Igreja.

Cobertos com o roxo da sobriedade, proclamemos a Esperança, cheios dela! Ele veio, Ele vem! Olhemos para o Alto: está próxima a nossa libertação!


(*) Rev. Márcio Retamero colabora com Calendário Litúrgico - Liturgia Reformada.

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