segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

LIBERDADE PARA OS CATIVOS
Rev. Derval Dasilio(*)



Meditando sobre os sentidos sugeridos no Evangelho de Lucas (4.16ss), pode ser bom lembrar uma vez mais: Jesus está longe do legalismo “bíblico”, da beneficência e do assistencialismo, ao apontar situações concretas alcançadas por dois termos: “davar” (דָּבָר) e “euangelion” (ευαγγελιον) – palavra e evangelho, no hebraico e grego bíblicos, respectivamente. Não se trata de “fazer caridade” aos pobres, mas de inaugurar a ordem nova integral regida pelas “políticas” do Reino de Deus: justiça, igualitarismo nos bens culturais, sociais e econômicos; fazer irromper e promover a única ordem em que se permite falar de uma libertação real.

É importante levar em conta que, muitas vezes, quando se fala de uma “opção preferencial pelos pobres”, se está, claramente, combatendo uma mentalidade originada entre bem-postos, como forma de alívio de consciências culpadas porque suas riquezas não são compartilhadas.

Como um lastro que se atira fora para facilitar a velocidade da nave econômica injusta e sem distribuição igualitária, a mentalidade assistencial, tida como sobra ou esmola dos socialmente mais bem posicionados (e não é preciso discutir aqui sobre a ética [ethos] nos meios para se alcançar riqueza), está muito distante do espírito de Lucas (4.14ss). A palavra evangelizadora ou é ativa e prática, na prática da libertação, ou é antievangelizadora. A palavra evangelizadora não é palavra de uma teoria abstrata. É uma palavra que faz referencia à realidade — política, econômica, jurídica, social — e a confronta com o projeto libertador de Jesus Cristo (fazer irromper o Reino de Deus e a sua Justiça, segundo a Palavra do Espírito de Deus).

“Evangelizar é libertar a Palavra” (Nolan). A raiz hebraica do termo (“davar”) diz: “Palavra é o que Deus faz concretamente para transformar a injustiça em Justiça”. Evangelizar é permitir e criar meios para a ação de Deus. Uma palavra que não entra na história dos sofrimentos humanos, das escravidões e das opressões; que não se pronuncia contra as indignidades impostas ao ser humano; que se mantém acima da história humana, ou nas nuvens, ou não mobiliza, não sacode e não provoca reações ao mal cultural, social; uma palavra que não suscita solidariedade aos mais fracos e oprimidos (e paradoxalmente: que não suscita adversários), não é herdeira da “paixão” do Filho de Deus pela Palavra.

Disse Jesus: “O Espírito do Senhor me enviou, fui ungido para trazer a Palavra, a libertação aos cativos” (Lucas 4.14ss).


(*) Rev. Derval é pastor e teólogo reformado. Ele colabora como analista de Calendário Litúrgico – Liturgia Reformada no Facebook.

Imagem: autoria desconhecida.



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